Sobre a imersão e toda gratidão
Não tive oportunidade de falar sobre minha carta mas senti que precisava compartilhar com vocês, talvez essa "falta de oportunidade" reflita exatamente parte da minha sombra da dificuldade de me conectar...
Minha carta foi ÀS DE COPAS, que basicamente fala sobre eu me jogar e aceitar as conexões, viver amores verdadeiros e confiar.
Realmente eu tenho essa dificuldade, talvez pela minha profissão ou talvez minha profissão já reflita indiretamente quem eu sou; sempre desconfiada, nunca aberta, com os pés atrás buscando as falhas...talvez tudo isso por eu mesma me sentir sempre a errada, insuficiente, a inadequada e proibida de ser carente. Não confio no outro pois indiretamente eu não confiaria em mim? Ou confio tanto em mim que não sobra espaço pra confiança no outro?
Não sei...meu processo terapêutico ainda não alcançou essa sombra que uma vivência com cartas alcançou tão fácil.
Mas preciso dividir com vocês que vocês são peças importantes de um processo tão profundo; o de confiar e pertencer.
Cheguei no clube num momento de caos, num momento em que abracei minha inadequação que por muito tempo diluí no álcool...desde os 17 anos bebia para me adequar. Sempre fui muito introspectiva, silenciada e até ali havia me sentido todos os dias de minha vida como inadequada: "fecha a perna, fala baixo, seja isso ou aquilo...converse, sorria, participe (mas não muito)" e o álcool tornava esse processo menos doloroso, fazer parte deixava de ser tão penoso e de repente eu conseguia me conectar mesmo que de forma rasa, artificial e scriptada... e quando eu entendi que o álcool me emprestava uma adequação mas me tomava todo o resto, percebi que era um preço muito caro a se pagar por algo que eu nem queria: me conectar...
E iniciando o tratamento do alcoolismo, minha analista indicou buscar grupos que eu pudesse fazer parte e que não precisaria do álcool.
(Meninas reconstruir uma vida longe de algo que antes alinhavava toda uma existência, é muito complicado. Minha vida sem álcool era como tirar a cor de tudo... como eu me divertiria careta? Como eu faria parte se eu nunca conseguia pertencer? Meus silêncios sempre foram incômodos aos outros. Minha distância sempre considerada indiferença) e assim cheguei no clube em 2023. Um grupo online, para conseguir finalmente me conectar mesmo doendo, mesmo careta, mesmo sem o álcool para me fazer engraçada...seria só eu e minhas verdades, será que alguém me acolheria mesmo sendo tão sem graça? Tão falha e traumatizada? Tão ressabiada e com poucas certezas?
E sim... de repente eu me sentia pertencente, mesmo sendo SÓ EU...com toda minha chatice encubada, meu mal humor ácido quase cativo. E queria mais, queria realmente ESTAR ENTRE, sentir esse adequamento tão sóbrio.
Quando cheguei na primeira imersão, toda essa sensação foi firmada e naturalizada...sim!!! É real, eu podia me conectar mesmo sendo meio chata ... mas não mais inadequada.
E a frase da Ari, ressoa na minha cabeça SEMPRE, toda vez que algo sussurra; "VOCÊ TEM QUE" , a voz da Ari grita: "Não tem que nada..." e "não ter que" me libertou. Pois o vício era justamente o que tornava confortável o TER QUE , quando na verdade eu poderia simplesmente SER, SENTIR E EXISTIR.
Esse ano, não consegui entrar em nenhuma reunião do livro...será que indiretamente eu não queria e me sinto finalmente livre para QUERER? Não sei...mas sei que percebi que mesmo não estando presente, ainda assim eu estava conectada com cada uma de vocês... não entrei nas reuniões mas li todos os livros então indiretamente eu me comunicava com cada uma das que também leram, conversamos através de nossos pensamentos e conclusões, cada uma sob a ótica de sua verdade. Aos poucos vou entendendo que se conectar é bom, que podemos confiar... e que cada pessoa tem um jeito de conexão, umas exigem mais atenção outras, como eu, precisam de conexão de baixa manutenção. Mas todas nós nos sentimos muito mais seguras, tendo em quem confiar, um espeça seguro para se aconchegar.
Isso também já foi tema de terapia, levei pro divã que agora havia me conectado com mulheres. E que eu gostava de estar entre mulheres, que conhecia mulheres incríveis mas cadê nossos pares? Se somos tão maravilhosas, especiais, esforçadas cadê os homens a altura? Não é possível que só mulheres se esforcem para ser pessoas melhores...
E nessa imersão, em uma das horas gravando os stories, postei que : "EXISTEM RELACIONAMENTOS SAUDÁVEIS POIS A MAIORIA DE VOCÊS SÃO CASADAS E ESTÃO AQUI"... ou seja, talvez o problema seja a bolha que estou inserida que me dá um parâmetro muito pessimista. E falei pras minhas seguidoras: tenham esperança meninas... talvez essa fala era mais pra mim que para elas.
E voltando a essa carta que tirei, pois ela usa expressamente a palavras ROMÂNTICA...ela fala que preciso me permitir me conectar com TODAS AS CONEXÕES POSSÍVEIS, INCLUSIVE AS ROMANTICAS. Vou levar essa esperança; "Existem relações saudáveis, NÃO PERFEITAS mas saudáveis!" Ouvindo vocês contando dos maridos, filhos e o quão é possível viver tudo tanto a liberdade de ser uma mulher foda, como o comercial de margarina de ter o felizes para sempre nasceu uma esperança; Será?
Talvez exista um ranzinza como eu por ae...com preguiça de se conectar mas que ao descobrir a conexão sinta que é confortável ser acolhido. Pois é esse sentimento que levo de cada uma de vocês, que me acolhem como se acolhe um gato arredio...dando meu espaço mas me permitindo se aproximar quando me sinto confortável.
Obrigada meninas por me deixarem fazer parte ...obrigada por me acolherem mesmo com todas minhas inabilidades sociais. Obrigada por me fazerem me sentir pertencente e respeitarem tudo que meu silêncio diz...obrigada por me darem esperança que existe o amor romântico mas principalmente obrigada por me darem a certeza que o AMOR ENTRE MULHERES É INATO.

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