Então é Natal...





                       Sempre gostei de Natal e de tudo que traz a ideia de Natal... não sei exatamente porquê, talvez fosse por ser a época que eu mais sentia que minha família era feliz, uma família afetuosa e funcional. Quando somos crianças é fácil acreditar em Papai Noel, mesmo que sua mãe fale que só crianças "retardadas" acreditam no bom velhinho (os anos 90 não foram fáceis, o politicamente correto não era usado principalmente pela minha mãe) ainda assim qualquer crença que eu tivesse era quase pedindo desculpas. Mas eu acreditava que todo ano era uma forma de reescrever e que o Natal seria o início de um tempo de paz. 

                            Minhas avós foram peças importantes de toda essa magia, na verdade elas foram peças necessárias em toda minha existência...minhas avós eram referência de afeto e aconchego, de paz e tranquilidade em uma infancia caótica de inadequação. Invejo pessoas que sentem saudades da infância, eu sinto ódio e gratidão por ter passado, odeio a infância e cada uma das lembranças que tenho dela MENOS OS NATAIS, os Natais eram pequenos globos mágicos natalinos jogados em um ambiente de instabilidade, silêncios desconfortáveis e cobranças desnecessárias. E dentro desses globos, revezávamos os Natais; um ano a ceia era na casa da minha avó materna e depois ia para paterna e assim sucessivamente, mesmo sendo uma matemática básica os meus pais sempre brigavam, aliás uma lembrança em que meus pais não estivessem se atacando é difícil de encontrar, eles SEMPRE brigavam por tudo e por nada. Nas coisas mais simples e nas mais complexas, tudo era motivo para xingamentos e silêncios que nunca resolviam nada só aumentava o abismo que separava todos. Evitávamos ao máximo quebrar os raros momentos de paz, mas um leite derramado poderia desencadear uma guerra nuclear, bombas atômicas emocionais mantinham eu e minha irmã sempre em estado de alerta, a paz sempre antecedia um esporro como diria o Rapa. 

                    Na casa da minha avó materna tinham amendoas, nozes, castanhas que quebrávamos no batente da porta. Tinha o manjar de coco com ameixa preta, frango e pernil... já na minha avó paterna tender com abacaxi, peru e carne assada. Aquele cheiro de assado dava pra ser sentido no portão de qualquer uma das duas, era o cheiro que anunciava que por mais ruim que estivessem as coisas era Natal e poderíamos ter a esperança de que tudo melhoraria. Todo mundo se abraçava, desejavam coisas boas e o estado de alerta pelo menos por uma noite podia ser substitúido pela sensação de gratidão. 

                       Depois que comecei a namorar o pai dos meus filhos, passamos a revezar entre a casa da mãe dele e minhas avós... e quando as crianças chegaram ainda mantivemos esse "turno" de revezamento. Depois que nos separamos que tudo começou a mudar, minha avó materna morreu um ano depois do meu divórcio e o Natal perdeu um pouco o brilho, lembro dela montando a arvore e colocando as luzinhas e o quanto ela ficava feliz em entregar os presentes para as crianças. Antes dela morrer, a ceia já havia deixado de acontecer na casa dela... meus tios nutriam brigas que até hoje não sei os motivos, assim como nunca entendi os motivos dos meus pais e ela simplesmente chegou um dia e falou que estava cansada que não faria mais ceia. Mas ainda assim montava a árvore, enfeitava a casa e sempre passávamos lá dar um abraço de feliz Natal. O espírito natalino na casa dela sobrevivia com a ajuda de aparelhos, mas sobrevivia. 

                       Minha avó paterna então ficou com toda minha referência de Natal, mesmo divorciada e nos Natais sem as crianças eu ainda me sentia protegida dentro do globo natalino quase como uma realidade paralela, uma fenda no tempo que eu me sentia segura como se eu ainda fosse uma criança que precisasse de uma família para se sentir protegida. Eu me sinto segura em tradições, de alguma forma sinto que é uma mensagem que "tudo está em seu devido lugar". 

                      Depois que minha avó faleceu, o Natal como eu conhecia perdeu o brilho...os pratos já não eram os mesmos, mesmo que eu repetisse a receita. Ainda tentei fazer Natais em casa, mas o alcoolismo não combina com Natal e talvez eu bebesse mais para tampar o vazio das pessoas que não tavam mais a mesa. A ressaca tirava o espírito do dia 25, tirava o brilho nostálgico deixava a frustração latejante. 

                        Ano passado passei me recuperando da minha cirurgia plástica, o presente de Natal para mim mesma e foi aí que percebi que o Natal poderia ser exatamente como eu quisesse e que eu poderia me permitir me silenciar pelos natais passados. Esse Natal então decidi que passaria sozinha, em casa fazendo uma das coisas que mais gosto; vendo filmes, séries e lendo. Seria um dia cheio de nadas, uma semana de descanso antes de uma viagem, uma economia de energia antes de cair na estrada e turistar por ae. 

                     Mas senti falta do tender, daquele cheiro de Natal... resolvi me arriscar. Comprei um Tender, mas não sei descascar abacaxis então comprei pessego em calda e cereja ao marasquino. Queria fios de ovos, mas demorei muito pra decidir isso e no dia 24 a tarde simplesmente não achei lugar nenhum que vendesse fios de ovo. Tinha framboesa e mirtilo em casa, comprei mel tambem...e esqueci do suco de laranja, então fui de limão. E ficou bom, não tinha o gosto do tender da minha vó... mas era igualmente gostoso, agridoce e suculento. 

              Acho que a vida adulta é isso, incluimos nossas frutas , nossos próprios sabores que gostamos e que temos mais facilidade em uma base já conhecida, no caso o tender. A família nos deixa uma base, uma referência de sabor mas quem vai incrementar a receita são nossas experiências, nossos gostos e cores. Talvez tudo tenha seu tempo e foi muito importante pra mim ter Natais de respiro, onde eu podia acreditar que minha família encontraria a paz mesmo que nunca tenham encontrado. Só a esperança já me dava oxigênio naquele oceano de caos. E hoje não preciso mais de um Natal para ser respiro, mas é uma forma de olhar pra traz e falar; QUE BOM QUE CONSEGUI, QUE BOM QUE ESTOU AQUI...QUE BOM QUE A PAZ VEIO, MESMO QUE SOMENTE DE MIM. As vezes a paz precisa ser construída e essa construção exige que estejámos prontos a mudar as receitas de nossas famílias, essa paz exige coisas SÓ NOSSAS, QUE SÓ NÓS CONSEGUIMOS ENCONTRAR. 

                       Não sei por quanto tempo passarei meus Natais sozinha, mas não me vejo dividindo o Natal com qualquer pessoa que tire minha paz ou atente contra minha sobriedade. Ainda preciso desse silêncio introspectivo, ainda estou construindo meus globos particulares. Talvez na verdade eu esteja finalmente quebrando os vidros desses globos e deixando que o espiríto natalino seja uma sensação mais genuína, pautada em uma estabiliadade que eu construo diariamente ... não vivo mais em estado de alerta e isso as vezes me assusta em outras me entedia. Me assusta que as vezes me pego esperando uma catástrofe vez que a paz sempre antecedeu um esporro... mas aos poucos me liberto da crença de que sempre preciso estar pronta pra guerra, isso é uma mentira. 

                     Minha mãe não deixou eu acreditar em papai noel, mas meus pais me convenceram de muitos bichos papões ... e pacientemente estou conseguindo abandoná-los. O tédio vem porque a felicidade é calma, diferente do que me fizeram acreditar a felicidade não é uma apoteose cartática, isso é histeria. Felicidade é uma avó com a rabanada no forno, pronta pra nos dá um abraço apertado...mesmo que essa avó viva só em nossas lembranças, a felicidade é rotina quando você se permite ser criança. Felicidade é essa paz de ter segurança, não preciso mais de um globo pra ter esperança porque é em mim que vive a real confiança. 



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