Porque eu só transo com palhaços?
Aprendemos na psicanálise que o trauma é gerado através de situações que nos afetam, normalmente ocorridas na primeira infância muitas vezes por não termos ferramentas emocionais suficientes para entender com maturidade a situação vivenciada ou seja, mesmo crianças que venham de famílias saudáveis e funcionais serão "traumatizadas" em algum momento em maior ou menor grau. Resumindo, uma criança de 7 anos que escuta os pais discutindo sentirá medo e por não ter maturidade emocional para assimilar o motivo da discussão pode internalizar que os pais estejam brigando "por culpa dela". Isso estamos falando de problemas corriqueiros de uma família saudável...claro que se tratando de famílias disfuncionais como a grande maioria das famílias dos anos 80 e 90, vez que surras corretivas eram consideradas um ótimo aparato pra educar filhos nossos traumas são muito mais profundos. E os gatilhos (hoje tão banalizado e usado para qualquer coisa que nos cause desconforto) na verdade são momentos que irão lembrar aquele momento que o trauma foi produzido, ou seja digamos que um dia na minha infância apanhei porque sujei minha roupa de lama...adulta, num belo dia normal caio na lama e sujo minha roupa. Existe uma chance muito grande desse episódio atual me conectar com o trauma do passado me fazendo sentir sensações que tenha sentido na infância. O papel da psicanálise é visitar esses momentos de traumas e com a maturidade de um adulto interpretar a situação que gerou esse trauma, "esvaziando" esse momento de significada (como diria Lacan) e assim não ser mais "gatilhada" quando vivenciar algo parecido.
Mas e momentos bons que nos afetam? Memórias engraçadas, felizes que nos fazem rir lembrando que nome tem? A ruim é trauma e a boa? Alma? A alma da nossa existência seria isso? Memórias divertidas e leves que lembramos sorrindo e que ao olharmos pra traz percebemos que são tão "bobas" mas que naquela época foi tão significativa. Porque nomeamos o ruim e simplesmente não nomeamos as boas... todo mundo fala; "nossa isso me traumatizou" mas ninguém comenta sobre as coisas boas, nossa isso me "almificou" ou qualquer palavra que fosse para lembrar de algo bom. E é engraçado porque o trauma realmente é um sentimento impertinente que do nada estamos fazendo algo corriqueiro e uma coisinha nos remete ao mesmo sentimento do passado de angústia, medo e temor. Por exemplo, meu pai não gostava de arroz "colorido" e minha mãe gostava muito e eu e minha irmã também. E minha mãe um dia fez arroz com colorau (que fica um pouco avermelhado o arroz. Nossa estranho, hoje em dia nem vejo mais pessoas cozinhando com isso) e um dia meu pai chegou do trabalho, abriu a panela e simplesmente jogou a panela inteira no chão gritando: ODEIO ARROZ COLORIDO... e pronto, some minhas lembranças.
E muitas vezes estou cozinhando ou sempre que vejo um arroz colorido essa cena inicia na minha mente como se tivesse um retroprojetor instalado no meu cébrebro com fragmentos de acontecimentos, pois são assim; pequenos insights de dias que existiram mas que não lembro mais nada. E muitas vezes é como se começassemos a duvidar que aquilo realmente aconteceu, principalmente quando entendemos já adultas como seria algo terrível, violento ou ruim para que uma criança lidasse, e uma das defesas emocionais é justamente a negação, então muitas vezes passamos a nos convencer que aquilo não foi real e nunca aconteceu. Mas do nada um arroz amarelado no prato te remete praquela panela sendo espatifada no piso igualmente amarelado da cozinha...
Acontece que as memórias boas elas também são assim, intrusas e do nada saltam no nosso pensamento como se fossem aquelas caixas surpresas que pulam um palhaço de dentro e você sorri e pensa "nossa nem lembrava disso ...kkk foi legal esse dia" então sendo Poliana gosto de pensar que esses momentos bons também geraram "traumas reversos", nos encheram de afetações positivas que compensaram os dias de arroz espalhado no chão e gritos contra arroz colorido.
E ontem tava assistindo um canal no you tube que sempre assisto e fala sobre dicas de filmes de terror, e tava falando sobre um terror novo em que é retratado a história da Cinderela pelo ponto de vista da meia irmã feia dela e bla bla bla e vendo aquelas cenas de "filme de época" lembrei do primeiro contato que tive com porno. Kkk como foi engraçado, pois nesse dia também tive contato pela primeira vez com o palhaço IT e lembro que senti muito medo com o palhaço e muita curiosidade com o pornô. Eu devia ter uns 10/11 anos e estava dormindo na casa da minha prima, isso não era muito comum pois minha mãe era muitooo controladora e eram pouquíssimas as vezes que eu podia dormir fora.
E eu sempre dormi muito cedo (isso se perdura até hoje kk) então não assistia nada que passasse na TV depois das 21:00, ao terminar a novela ou normelmente o programa no Ratinho pois minha mãe nunca foi de ver novela mas ela gostava muito do Programa do Ratinho e qualquer coisa que fosse sensacionalista (passei minha adolescência toda assistindo Panico na TV pois minha mãe achava a coisa mais engraçada que existia - como eu tinha raiva, odiava com todas minhas forças. O programa do Ratinho achava engraçado, principalmente o exame de DNA) enfim, nesse dia em específico fui dormir na casa da minha tia. E minha prima costumava dormir tarde e ela tinha TV no quarto dela, não que minha tia liberasse ela ficar vendo TV mas ela não ficava supervisionando ou seja, ela falava "desliga a Tv e dorme" mas logo quem dormia era ela e minha prima ficava muito feliz com isso.
E na verdade minha prima já tinha comentado comigo sobre o Cine Prive, acho que todos que cresceram na década de 90 já ouviu falar da Emanuele, finada Emanuele ou talvez nem tão finada assim pois na verdade descobri há pouco tempo que Emanuelle é quase que uma personagem lendária e já foi interpretada por várias atrizes embora a mais reconhecida como a personagem tenha morrido com 68 anos em uma casa de repouso, achei um pouco triste pois 68 anos nem é tão velha assim para estar em uma casa de repouso, com essa idade quero estar viajando por ae, escrevendo enfim fazendo qualquer coisa menos morrendo. Voltando a Emanuelle, ela tinha aquele olhar virginal sapeca de curiosidade, despertava desejo dos homens pela juventude e jovialidade. Enfim eram filmes que passavam na band mas não eram exatamente pornô, hoje tem novelas que mostram mais que os filmes de Emanuelle...era mais peito e mamilo que pornô em si. Mas em um tempo que nem imaginávamos o que era ser do Job, qualquer mamilo já era demais. Enfim, fui pra casa da minha prima já curiosa pra assistir sobre esses filmes "proibidos" que ela comentou...nossa que loucura, veremos mulheres peladas meu Deus. Tava curiosa... e lá fomos nós depois que minha tia dormiu, ligar a tv com o maior silêncio do mundo, basicamente a tv tava no mute (não lembro exatamente se estava mas acho que sim) acontece que antes de localizarmos Emanuelle exibindo os mamilos na tv encontramos um palhaço ensanguentado... aquele sangue todo chamou mais atenção que um mamilo sem graça e branquelo. Até esquecemos que estávamos procurando mamilos e ficamos facinada pelo palhaço ensanguentado...
Sempre assisti muitos filmes de terror com minha mãe, mas minha mãe era meio incoerente e tipo assim; Você pode assistir o Jason mas não pode assistir palhaço assassino... e por algum motivo minha mãe não deixava eu assistir filme de palhaço, eu acho que era porque eu já tinha medo de palhaço sem assistir filme. Imagina assistindo e ficando apavorada em cada aniversário infantil com cada aparecimento de um cara de nariz vermelho, afinal no Brasil nem jogamos hockey né então dificilmente eu encontraria um "Jason" pra me apavorar. E lá estávamos, como duas fora da lei assistindo tudo que não podia...mamilos e palhaços.
Acontece que demoramos muitooo no filme de palhaço, afinal quem já viu o filme do IT de 1990 sabe que o filme tem mais de 3 horas...provavelmente deve ter sido uma versão editada já que estava passando na tv, mas ainda assim é um filme muito longo. E acabou que nos entretemos com o It e esquecemos da Emanuelle, quando o IT acabou estávamos apavoradas consequentemente sem sono algum, então queríamos ver os benditos dos mamilos que não tinhamos visto e agora até a Cine Privê já tinha acabado. Mas estávamos decididas a vermos mamilos, na verdade "mulher pelada" pois naquela época nem imaginávamos exatamente o que veríamos mas sabíamos que era proibido. De repente, caimos no canal do Shop Time que simplesmente tinha um programa apresentado pela Monique Evans e ela vendia produtos eróticos, incluindo filmes pornôs. E lá estava o que procurávamos; MULHERES PELADAS... e lembro até hoje; Robin Hood, o ladrão de mulheres, era esse o título do pornô anunciado pela "titia" (monique nessa época se autointitulava como Titia...e falava a palavra parecendo que comia as letras com leite condensado pra ficar bem sexy) voltando ao Robin. Era um homem bem magricela com um chapéu verde, que nem do personagem clássico mas ele passeava pelas aldeias enquanto os maridos estavam na guerra e transava com as mulheres, resumindo o Robin Hood nada mais era que um novinho "comedor de casadas". Mas nem aparecia nada direito, afinal era um anuncio do filme que deveria ser comprado pelo telefone...
Eram apenas takes que mostrava ele tirando a roupa das mulheres, ele começando a transar com elas mas nada expositivo provavelmente o que veríamos na Emanuelle; mamilos, linguas e mãos. Mas para nós já era demais, até porque não era só o pornô que Monique anunciava mas também produtinhos eróticos (que hoje saltam do nosso feed de instragram sem qualquer cerimônia) mas naquela época só mulheres depravadas ousariam usar um vibrador e era isso que Monique estava anunciando; dildos, cremes e lubrificantes. E entre um anuncio e outro ela atendia telefonemas com confissões de aventuras sexuais dos telespectadores e também falava sobre suas próprias experiências. Era muita informação para duas meninas de 11 anos... um mundo completamente novo. Não escutávamos nem metade do que ela estava falando pois a tv estava extremamente baixa, mas dava pra entender que era uma realidade que nem imaginávamos que existia. O medo do palhaço abrandou um pouco e deu lugar para curiosidade, nossa queria um Robin Hood me roubando ... parecia ser algo muito divertido (eis a cultura do estupro intrínseca em qualquer ponô mas hoje não vamos problematizar isso pois só estou relatando algo e naquela época talvez eu nem soubesse o que era estupro).
E pensei por muito tempo no Robin Hood, queria muito ser "roubada" por ele mas ao mesmo tempo pensei muito no IT e naqueles dentes pontiagudos... talvez essa seria a explicação que Freud daria; foi tão confuso pra mim essa experiência naquela idade que não a assimilei de forma correta e minha excitação se misturou com o medo e de repente passei a transar somente com palhaços. Não palhaços como o IT, afinal é difícil achar pessoas de nariz vermelho espalhada por ae mas palhaços em seu sentido figurado está lotado. Eu mesma poderia listar uns 5 que conheci no último ano. Miro no Robin Hood e acerto no IT, quero um pornô e o que encontro é um palhaço sem graça nenhuma e a curiosidade pra saber o que vai acontecer com o palhaço, me impede de viver o porno desprentensioso apenas de mamilos despudorados.

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