A primeira vez a gente nunca esquece ... mas deveria

                         

                    Sempre gostei de escrever, desde que aprendi com 7 anos. Logo que aprendi ganhei um diário, daqueles com chavinha (que não tranca nada) e folhas coloridas e passei a escrever. Foi assim minha vida inteira até eu me casar, quando fui morar com meu ex (após o casamento) descontinuei meus diários (como várias coisas que parei com o casamento) porque ele não podia me dar essa privacidade e após uma vida inteira tendo escondido meus diários dos meus pais, eu não aguentaria ter que escondê-lo na minha própria casa então parei de escrever e naquele momento isso não pareceu nada absurdo, hoje eu vejo o quão violento foi não ter privacidade e não poder ter um diário. Eu não tinha diário mas tinha uma coleção de chifres que eu fingia não ver, talvez eu tenha desistido do diário pois para ele eu teria que assumir que era uma chifruda e o script de esposa feliz não iria colar. 

                          Enfim, deixei os diários e fui pra internet. Iniciei na internet num blog EXATAMENTE como esse, no blogspot mesmo e comecei a escrever num estilo meio "How I met you mother" pois minha ideia era que meus filhos lessem no futuro. E lá eu colocava tudo, como foi tudo da gravidez, como era o casamento...era um diário um pouco menos secreto. E foi assim que comecei a ser "conhecida" na internet, pois as pessoas começaram a ler e se identificar e ali que começou tudo, depois criei o o Maternólatra que era uma forma de conhecer as mães que se identificavam lendo meu blog enfim e cá estamos. (antes que me perguntem, perdi todos os textos...mais de 500. Quis migrar do blogspot para um blog pago e simplesmente esqueci de pagar, perdendo mais de 5 anos de textos...até hoje me dói lembrar isso) 

                      Mas nesse caminho todo, foram mais de 30 anos...desde meu primeiro diário, até aqui. E lendo um livro; "Melhor não contar" que percebi que nunca deveria ter parado de escrever. O livro, que é maravilhoso por sinal, leiam...leitura fácil, fluída e deliciosa, embora aborde um tema indigesto. No livro fala o quanto nós mulheres somos desencentivadas a contar qualquer coisa que seja, o quanto somos silenciadas sobre os nossos sentimentos, o quanto devemos sentir vergonha do que pensamos e inclusive nesse contexto que surgem os "queridos diários" lugares, secretos para que despejemos em segredo o que sentimos afinal ninguém deve ter acesso ao nosso pensar. E lendo o livro percebi que eu havia largado um hobby que sempre amei; ESCREVER... há alguns anos a leitura também havia sido largada, mas desde 2023 retomei esse hobby e hoje posso vivê-lo muito bem obrigada. Lendo de 2 a 3 livros por mês, e essa volta a leitura já havia sido um insight justamente sobre como nos largamos e deixamos pra traz coisas que gostamos de fazer. 

                    Já o escrever eu enfiei pra debaixo do tapete, fingindo que meus textos técnicos nos processos e os posts (muitas vezes tecnicos também ou pelo menos sobre direito) era escrever. Mas não é, o escrever hobby é assim...deixar as letras escaparem dos meus dedos, deixar o ID sussurar no meu ouvido a palavra que deve escorrer pras teclas. Nada de direito, trabalho mas tão só pensamentos mesmo que não populares. E porque eu parei??? Comecei a ter medo de ser mau interpretada, quanto mais eu ganhava "palco" menos eu podia me expor, menos interessante era deixar a Stephanie real ser conhecida. Eu tinha que ter a postura que esperavam que eu tivesse e não ficar contando as desventuras do tinder, ou o quanto pessoas que não gostam de coca cola Zero me irrita, afinal o que eu "iria ganhar com isso"; NADA...pq hobby é isso. É fazer o que se gosta sem se importar com o palco e pensando tudo isso que decidi voltar a escrever ... nada específico, só o que vier a mente. E se alguém quiser ler, está convidada a sentar comigo por aqui mas não será nada amplamente divulgado...isso não significa que será censurado, a ideia é essa; eu poder viver meu hobby sem vergonha de vivê-lo. Eu poder contar quem sou sem me importam com o que pensam. 

                  E depois de ontem, de divulgar pela primeira vez no close friends que existia esse cantinho aqui... bem amador, lembrando muito meu começo, sem se importar com algoritmo ou monetização apenas com minha vontade de escrever e principalmente por ter tido uma recepção tão maravilhosa, e mensagens tão fofas falando que estavam ansiosas pras próximas histórias, pensei SOBRE QUEM POSSO ESCREVER?? Sobre qual date?? E decidi que começaria do começo... contando algo que nunca contei pra ninguém , nem pra minha melhor amiga...simplesmente fingi que não aconteceu ou que pelo menos não foi assim. Fingi naturalidade de algo nada natural, engoli o choro e continuei. Mas cansei de engolir ...agora eu quero vomitar, escarrar, cuspir TUDO QUE GUARDEI TODOS ESSES ANOS. 

                 E nada mais justo de começar do começo... MINHA PRIMEIRA VEZ, ou deveria falar meu primeiro estupro? (porque infelizmente não foi o único e talvez eu conte sobre os outros por aqui, talvez não porque hobby é assim, sem ordem ou obrigação, ele apenas acontece) . E sei que não sou a única que coleciona histórias violentas fingindo naturalidade, infelizmente somos socializadas para isso...principalmente as adolescentes dos anos 2000 e as que vieram antes de nós...hoje talvez com tanta informação aos poucos as meninas estão parando de engolir e aceitar, mas ainda fingimos muito bem. Ainda fingimos que em algum grau "queriamos" ou assumimos o risco e que não foi nada demais...quando foi. 

                Meu alcoolismo começou aos 17 anos, mas nessa época eu ja bebia bastante. Já "sabia" beber, ou achava que sabia embora os comas alcóolicos deixavam claro que não...até os 19 vivenciei 3 comas alcóolicos e meu anjo da guarda me salvou nas três vezes. Como já falei em outros textos, eu sei o quão sortuda sou pois sempre me coloquei muito em risco e cá estou, viva e saudável. Mas isso não significa que não tenho memórias que não gostaria de ter e talvez seja isso que evoluiu para "apagões" quando eu bebia...depois de alguns anos bebendo muito, passou a ser normal "esquecer tudo" enfim voltemos. 

               Minha mãe era muitoooooo controladora e eu não podia fazer absolutamente nada, em outro momento posso desenvolver melhor esse contexto mas hoje não é o intuito. Então esse controle exacerbado não contribuiu em nada para minha adolescência, só me tornou uma mentirosa extremamente detalhista para conseguir existir além do controle da minha mãe ou seja, quanto mais ela me controlava mais eu desenvolvia meios para enganá-la e assim foi até eu sair de casa após o casamento. Então quando vejo as pessoas falarem "que tempo bom, queria voltar na infancia e na adolescencia" eu sinto calafrios, pois pra mim seria voltar pra uma época horrível. E era exatamente nesse momento que eu estava, 17 anos...em um dia de semana, que matei aula (estudava a noite) para beber com minhas amigas. Cheguei em uma festa quase na hora de voltar, afinal se eu matava aula pra beber eu tinha que chegar em casa exatamente no horario que chegaria se estivesse na escola...23:00 no máximo. Uma vida de cinderela...ou melhor de gata borralheira. E essa "festa" devia ter começado umas 21 então eu sempre tinha pouquíssimo tempo para ser uma adolescente normal, por exemplo como a festa só começaria as 21 e eu teria que estar as 23 em casa, eu ja começava a beber as 19 logo que descia do ônibus para conseguir "estar no ar" quando chegasse na festa. Ou seja, estamos falando de uma adolescente bebendo extremamente rápido, bebida de procedência duvidosa (normalmente vinho misturado com leite moça, cerveja barata e dificilmente gelada...afinal naquela época o que importava era ficar "louca") chegando em uma festa com homens mais velhos - homens com 25/26 anos. 

                  Eu já estava bem bêbada, sem enxergar nada direito ...nessa época eu insistia em tirar os óculos, mesmo sendo míope desde que me conheço por gente, não enxergo nem um palmo na minha frente sem óculos mas eu costumava tirar os óculos. E minha miopia se confudia com a bebedeira e eu basicamente não conseguiria distinguir um homem feio, de um bonito. Talvez isso já fosse intencional para eu realmente não ter que me justificar para mim mesma, porque eu insistia em dar confiança pra pessoas com estética tão prejudicada. E não lembro exatamente como fomos parar no banheiro, mas lá estávamos...em um banheiro de louça antiga, lembrava muito o banheiro da casa da minha vó com o sanitário marrom, combinando com o piso também marrom. Mania que o povo antigo tinha de fazer uns banheiros escuros e horrorosos. Lembro que não tinha box e nem cortina, era só um lugar pra tomar banho sem nada que dividisse o lugar com o resto do cômodo. 

                Lembro de estar deitada no chão, e minha cabeça rodava muito era difícil de manter o olho aberto sem sentir ânsia...o beijo dele era tão molhado e desajeitado, me molhava inteira e me dava mais ansia ainda. Já não sabia se era a vodka barata ou a saliva alcóolica dele que me dava ansia, lembro ainda de sentir gosto de cachorror quente. Caralho, isso faz mais de 20 anos e nunca tinha parado pra relembrar esse dia e pensando nele agora veio o gosto do cachorro quente na minha boca...

                Lembro ainda de ouvir risadinhas, vindo da janela...a janela era alta, como toda janela de banheiro mas os meninos estavam todo empinhocados vendo o que estávamos fazendo. Eu tentei reclamar, minha mão muito lentamente apontou pra janela e ele falou: AINNN DEIXA ELES , ELES SÃO BOBOS...e eu me esforçando muito para não vomitar, parei de forçar meu olhar pra cima pois isso aumentava minha vontade de gorfar.  E ele tirou desajeitadamente minha calça, jeans...até hoje lembro qual calça era. Uma calça grafitada, escrito HIP HOP ...nossa era difícil tirar essa calça, ele também penou. Eu só queria que acabasse logo, estava passando mal o gosto de cachorro quente e vodca barata não parava de voltar na minha boca.

               Aff isso que é sexo?

               Anos depois (pra ser exata ESSE ANO 2025 assisti o filme "How to have sexy" e me senti exatamente na cena da praia -ASSISTA) eu não queria aquilo, estava péssimo, nojento, terrivel mas por algum motivo eu achei que deveria ficar imóvel. Sentia que eu já era "velha demais" pra ser virgem, assim eu iniciaria logo minha vida sexual (mal sabia eu que seria catástrofe atrás de caos, antes tivesse encarado o celibato)  mesmo estando sentindo dor, ânsia, ojeriza e ódio, daquele mamute em cima de mim...estava encarando como um remédio ruim, um chá de boldo que se toma pra sarar da bebedeira. Todo mundo tem uma história ruim de sexo né? 

              Na minha cabeça não era estupro, era uma "história ruim de sexo"... muitos anos depois que me dei conta que não só essa vez mas várias outras eu fui estuprada e confesso que hoje um dos principais motivos de não beber é para que eu nunca mais passe por isso. E para que eu esteja muitooooo alerta, para proteger a Stéphanie adolescente que foi estuprada naquele banheiro horrível,  a reagir se precisar. Infelizmente falhei miseravelmente muitas vezes ao longo dos anos, normalmente por culpa da bebida ou pelo menos era essa desculpa que eu dava e essa Stéphanie reviveu muitos "sexos ruins" ao longo da vida. 

             Mas essa foi a nada memorável primeira vez. 







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